Política

Eleitores impacientes e mimados

NeyBarbosa
Escrito por NeyBarbosa

O perfil do eleitor brasileiro é jovem? Mas, o que isso implica diante da importância que o voto assume, numa democracia representativa?  O que se pensar da juventude que irá às urnas, em outubro de 2018?

Segundo dados do TSE – referentes a Jul./2018 (http://www.tse.jus.br/eleitor/estatisticas-de-eleitorado), aproximadamente 53,4 milhões de eleitores brasileiros tem entre 16 e 34 anos de idade. No Nordeste, eles representam 39,5% do eleitorado e, na Bahia, são 37,6%. Vale ressaltar que, dentre estes, as mulheres são maioria, em qualquer dos cenários apresentados. Quando se observa o grau de instrução do eleitorado, tem-se que aqueles que ainda não completaram o ensino fundamental, representam 25,8%, enquanto que, apenas, 4,96%, possuem nível superior completo. Do total de eleitores: 54% estão entre analfabetos e os que não possuem o ensino médio completo, dentre estes, ressalta-se que, 6,5 milhões de eleitores, se declaram analfabetos.

Por outro lado, no que tange à participação política, observa-se que, no Brasil, o voto tende a ser pessoalizado, ao invés de programático. Aqui, os eleitores votam em pessoas, isto é, agentes políticos, cujos discursos se aproximam de um perfil de “consumo político ideológico”, do eleitor. Diz-se consumo, pois o eleitor brasileiro compreende o “agente político” como uma mercadoria, cujo valor é mensurado pela capacidade de obtenção de benefícios individuais e, cuja relação de troca, é orientada pelo voto individual e da família. Essa relação instrumental prioriza os fins, em detrimento dos meios e esvazia o debate político, enfraquecendo os laços de solidariedade, o fortalecimento do bem comum e o engajamento político.

Neste contexto, o eleitorado que se apresenta para o pleito de 2018, é formado por jovens impacientes e mimados, que têm medo de ficar de fora, daquilo que está “acontecendo”, ou de estar perdendo algo interessante, que os outros estão experimentando ou vivendo. Essas características, que circundam parcelas das juventudes, estimulam o crescimento da ansiedade e fazem com que as angústias ocasionadas, por possíveis frustrações, orientem as tomadas de decisões, que não, necessariamente, representam o interesse do indivíduo ou de sua coletividade, mas, aquilo que pode expressar uma opinião da moda, algo que é compartilhado e curtido por uma dada maioria, que neste caso, não é quantitativa, mas representativa, daquilo que o indivíduo compartilha, em suas redes sociais.

A juventude é como a espectadora impaciente, do cineasta Gérard Mordillat. Ela se senta diante da televisão, com mais de 250 canais, altera compulsivamente os canais e descobre que não tem nada que lhe interesse, para assistir, ainda que disponha de canais específicos, de reprodução de filmes e séries, com centenas de títulos, em distintos gêneros. Nesse sentido a juventude, como espectadora, não demonstra paciência para sentar e ouvir, falar e refletir, acerca de determinados temas ou assuntos. O tempo é algo efêmero e seu ciclo de existência e de observação, torna-se cada vez menor. Como consequência, as relações face a face, tornam-se instantâneas e voláteis, os diálogos rápidos e as frases ditas, são como mensagens de WhatsApp. As horas são vencidas pelos segundos.

Como espectador impaciente, ela, a juventude, transforma-se num consumidor mimado, de tempo integral e insaciável, alguém que a todo tempo é seduzido pelo fetiche, continuo, das mercadorias disponíveis para o consumo. A vida cotidiana é o fetiche da política, aquela que seduz esses impacientes e mimados consumidores e os políticos são as mercadorias, cujos profissionais do marketing político querem vender, como algo que o jovem não pode perder, ou deixar de curtir, algo que, se não consumido, gera ansiedade e frustração.

Esta geração em foco é aquela que experimentou, nos últimos anos, desde a implantação do plano real, o crescimento no poder de consumo e da qualidade de vida. Compartilhou, não somente acesso a bens e serviços, como também acesso às novas tecnologias. Presenciou a migração para classe média e a redução dos índices de pobreza. É uma geração que não experimentou a crise, como nos anos 80 e 90 do século XX, e cresceu diante da existência do emprego e das descobertas do Pré-Sal. Este conjunto do eleitorado, cresceu em paralelo ao crescimento das redes sociais e tornou-se apêndice destas e responsável por inúmeras “verdades” compartilhadas e que estão expostas ao toque, no plano das telas dos smartphones, onde o conhecimento é substituído pela informação, pela frase de impacto e pelo dito dos influenciadores digitais.

Desta forma, está fora ou deixar de experimentar algo que as outras pessoas fazem e demonstram ser gratificantes, causa frustração e gera depressão e, neste caso, cria eleitores manipulados, mimados e impacientes.

Mas, se cada político fosse um canal de televisão disponível, o que seria necessário para que o eleitor jovem sintonizasse em um dos canais? Esta questão é norteadora das práticas políticas e das estratégias de venda da mercadoria, candidato, para os eleitores. Essa mesma questão é a que esvazia o sentido da democracia representativa e a importância do voto. Ela desvia os olhares da população jovem para agendas de interesses daqueles que dominam as estruturas políticas do país. Elas propagam o medo e fomentam o debate público sobre temas como a violência pelo mote da segurança pública, ao tempo em que esvaziam o debate sobre as desigualdades sociais ou as políticas de redistribuição de renda. Elas tapam o Sol com a peneira e fazem crer num segundo Sol.

Por fim, a juventude que irá as urnas é vítima das relações efêmeras, que se estabeleceram nas redes sociais e que se multiplicaram na vida cotidiana, dos selfies e likes, como uma necessidade premente, para existir e coexistir na sociedade. As identidades e as distintas formas de reconhecimento se transformaram em fetiches, e os agentes políticos que reivindicam para si essas identidades e reconhecimentos, foram modelados para serem mercadorias, enquanto que o político e a política tornaram-se etérea para a maioria da população. 


Por: José Raimundo de J Santos – Doutor em Ciências Sociais; Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB. Email: rahisantos@gmail.com
Fonte: ASCOM UFRB

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