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Esperança agonizante: um dia os negros vão cansar de apanhar

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NeyBarbosa
Escrito por NeyBarbosa

tangoAntes de tudo, quero pedir desculpas aos meus leitores, pois  tod@s sabem que foge ao nosso perfil, matérias que exponham jovens negros em situações de vulnerabilidade. Mas, frente ao ocorrido, não tenho como silenciar.

Preciso falar com vocês sobre Tango, ou melhor, Marcos Paulo, jovem negro de 19 anos, morador de Itinga, mais precisamente no Residencial Dona Lindu, filho de dona Maria e irmão de João, Gabriel, Kelly e Mábia, essa última especial, portadora da Síndrome de Down. O pai de Tango deixou a família quando o mesmo ainda era criança. Tango provem a renda da família.

Tango sofre de inchaço escrotal (Hidroceles), consequência do trabalho pesado durante a infância. Aos 11 anos trabalhava no caminhão de água, carregava garrafão de 20 litros. Marcos tenta fazer a cirurgia pelo SUS há quase 1 ano. Foram dezenas de tentativas, nos governos de Mário Paiva e no atual de Moema Gramacho. Já foi nos postos de saúde, policlínicas, hospitais, regulação e até na Secretaria de Saúde.

O inchaço aumentou muito nos últimos cinco meses e Tango não conseguiu mais trabalhar direito. Para não ter que demití-lo, o patrão reduziu a jornada e mudou a sua função. O inchaço aumentou mais e Tango já não conseguiu mais pedalar para ir de bicicleta para o trabalho, que fica no Jóquei Club. Agora tem que pagar passagem. O inchaço aumentou mais e Tango já não consegue andar direito, dói muito e o número de faltas na escola, já beira o limite da reprovação.

Mesmo com toda a dificuldade e para não o deixar sem trabalhar, o patrão contrata Marcos, esporadicamente, para fazer alguns serviços dentro de sua limitada condição.

Ontem, dia 30, às 09:00h, Tango e Digo, seu colega de trabalho, aproveitaram um intervalo e foram até o mercado da esquina comprar pão e suco, quando foram abordados por uma viatura da PETO, lotada na 52ª CIPM de Lauro de Freitas.

Naquela abordagem padrão, um dos policiais perguntou que “desgraça” os dois estavam fazendo no Chafariz, já que moravam no Lindu? O aterrorizante show de violação dos direitos prosseguiu. O celular foi requerido e a intimidade exposta. Acesso ilegal às fotos, vídeos e áudios. Os senhores da ordem questionaram o “dialeto de bandido”, usado nas trocas de áudio. Não sendo o bastante, Tango ainda foi agredido duas vezes na cabeça, com uma vassoura, por um dos policias e liberado em seguida.

Humilhado, espancado e traído pelo Estado, ele seguiu e voltou para seu trabalho com o saco de pão, mortadela e suco.

Confesso que minha esperança agoniza, à beira da morte. Essas ações racistas estão se radicalizando nas periferias, fruto de uma política de segurança falida, que só funciona na cabeça do Governador e do Secretário de Segurança. O que me preocupa, é que mesmo as pessoas boas tem um limite. Um dia elas cansam de apanhar.

Mas por último, gostaria de, em público, pedir a Tango que não se transforme no monstro que eles tentam forjar. Eu sei que é bem mais fácil e barato, atirar na cabeça do que proporcionar uma cirurgia de Hidroceles Testicular.


Fonte: folhapopular.net.br
Por: Ricardo Andrade

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