Comportamento

TV, crianças e sexualidade

NeyBarbosa
Escrito por NeyBarbosa

Os pequenos não estão preparados emocional, cognitiva e biologicamente para serem expostos às manifestações da sexualidade adulta

A sexualidade é um tema que intriga e acompanha o homem ao longo de sua jornada. Já foi associada ao demônio, execrada e transformada em pecado, durante alguns séculos massacrada pela repressão, para ser depois liberada pelo feminismo e pela revolução cultural, na segunda metade do século 20.

A partir do século 21, tendo essa herança como guia e com a ideia da repressão em baixa, havia um clima favorável para a exploração de novas maneiras de viver e buscar o prazer, de forma menos neurótica e mais responsável. Contudo, isso não parece estar ocorrendo.

Nossa sexualidade, em especial desde a Idade Média, foi marcada pela égide da repressão. Porém, parece que nas últimas décadas, ela vem sendo marcada por outra espécie de ação psíquica.

Novos conceitos e desequilíbrios

Se antes a simples percepção do desejo era sentida como errada, como algo que deveria ser alvo de recriminação e de abstinência, hoje é encarada como algo que deve ser satisfeito de forma imperiosa. Se a repressão levava ao abafamento do desejo sexual, incrementando a angústia e levando à formação de sintomas psicologicamente determinados, hoje a angústia parece levar à busca do pleno, para nos sentirmos completos, pois não suportamos o vazio, a incompletude, a mortalidade.

A busca irrefreável de prazer, determinada por nosso anseio onipotente pela plenitude, estimulada pelas novas descobertas tecnológicas, aguça o desejo de superação e transgressão de nossas limitações humanas – o que em vez de conduzir a um processo de autoconhecimento, parece estar nos conduzindo a uma profunda alienação de nossa verdadeira humanidade.

Alcance além do previsto

Essa busca parece não estar sendo bem avaliada em relação aos efeitos que vem produzindo na infância, pelo fator de exposição via mídia e outras transformações sociais. Crianças não se encontram preparadas emocional, cognitiva e biologicamente para serem expostas às manifestações da sexualidade adulta, mas infelizmente isso vem ocorrendo de forma massiva em nossa sociedade, sem a devida crítica e reflexão.

A erotização da infância e da adolescência é uma forma de maus tratos que se impõe, social e culturalmente às pessoas dessa faixa etária. Em função de padrões e costumes característicos de nossa sociedade de consumo, em que tudo é tratado como um objeto passível de ser consumido, não vejo o devido cuidado com a exposição de temas adultos veiculados pelas mais diversas formas de mídia. O processo de erotização da infância pode acarretar sérios prejuízos sobre o desenvolvimento infantil. Um deles é a alteração na estruturação da personalidade, com desvios que levam ao adoecimento psíquico.

O abuso sexual, o vício em drogas, a exploração sexual da infância e da adolescência são apenas alguns indicadores da maneira perversa e crescente como a sociedade vem tratando suas crianças e adolescentes.

Como forma de prevenção desses problemas, devemos estimular os pais a estarem mais próximos e presentes na vida de seus filhos, evitando o distanciamento – e consequente alienação – das funções paterna e materna determinadas pelo atribulado ritmo da vida contemporânea. Portanto, é hora de refletirmos, séria e eticamente, sobre esse tema.

Nossa evolução psicológica, social e cultural deve pautar, de forma responsável, a autonomia e a consciência sobre nosso corpo e as formas de obtenção de prazer com o mesmo. Se assim o fizermos, estaremos auxiliando as futuras gerações a se apropriar desse legado evolutivo de forma gradual e criativa. Teremos, assim, cumprido com nossa responsabilidade de darmos um passo à frente em nossa jornada civilizatória, tornando-nos mais cientes e responsáveis de nossa função como seres sociais e racionais.


Fonte: namu.com.br
Publicado em dom, 27/10/2013 – 22:48
Atualizado em sex, 11/08/2017 – 11:19

Donnie Ray Jones / Flickr / CC BY 2.0
Foto: Thinkstockphotos

 

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