Armando Correa

Sob Medida

O ser humano possui vários hábitos que são construídos com o passar do tempo. Eles são importantes e necessários no cotidiano em virtude de facilitarem a prática de atividades rotineiras, das mais simples as mais complexas, tornando-as operações que podem ser repetidas de forma praticamente mecânica. Sempre que o homem inicia uma nova atividade ou se depara com desafios inesperados, ele precisa gastar bem mais energia e concentração para aprender como lidar e, caso necessite, reproduzir a mesma ação outras vezes. Quando se obtém o domínio destas atividades, então, o gasto energético é menor conseqüentemente, haja vista não ser mais preciso utilizar as forças com tanto empenho, pois já se adquiriu a rotina.

Os hábitos são bem definidos por William James (1842-1910), estudioso da psicologia:

Hábitos são ações ou pensamentos que aparecem aparentemente como respostas automáticas a uma dada experiência. Diferem dos instintos pelo fato de que um hábito pode ser criado, modificado ou eliminado pela direção consciente. Os hábitos são valiosos e necessários. O hábito simplifica o movimento necessário para obter um dado resultado.

Portanto, os hábitos fazem parte da educação e da sua aplicabilidade diária, tal como escovar os dentes, tomar banho, passear, tomar as refeições em determinado horário, realizar leituras, assistir novela, trabalhar etc. Desta forma, o homem administra o tempo e a sua disponibilidade para executar os variados eventos existentes. Isto é bom pela praticidade, economia e habilidade que resulta em função dos hábitos. Todavia, é preciso observar que, apesar de suas vantagens ele é limitador. Nos apegamos de tal forma aos hábitos que encontramos dificuldade na hora de modificá-los, tornando-nos resistentes às transformações.

Não desejamos despender energia e atenção para novos eventos, salvo nos casos em que o nosso interesse seja despertado com boa dose de motivação e objetivos particulares. E bem se sabe que as mudanças são inerentes ao desenvolvimento e à evolução do ser humano, tornando-se, comumente, num dilema, quando se nos apresentam as opções de modificação ou de permanência. A esta questão, William James também ponderou: “Retirar a atenção de uma ação torna-a mais fácil de ser executada, mas também a torna resistente à mudança. O fato é que nossas virtudes são hábitos, tanto quanto nossos vícios”. Então, o perigo reside na ausência de aperfeiçoamento das virtudes e na substituição dos vícios por novas virtudes. O foco está na utilização dos hábitos, e no hábito, em particular, de analisar e aceitar as mudanças em nossa vida.

Hábitos e mudanças são distintos e causam confusão na maneira pela qual vivemos. Desejamos o hábito, mas precisamos da mudança igualmente, levando-nos ao desgaste quando nos fixamos apenas na rotina. Contudo, ambas as condições, embora conflitantes, são fundamentais. Nas palavras do filósofo Heráclito (540-480 a.C.): “A divergência e a contradição não só produzem a unidade do mundo mas também a sua transformação”. Ele considerou o mundo como um fluir, semelhante a um rio, alegando ser impossível banhar-se duas vezes na mesma água. Ou seja, a mudança é ininterrupta e cada novo instante nunca será igual ao que já passou.

Recorro a um caso ocorrido para exemplificar. Um empresário do ramo da hotelaria-fazenda viu-se com um problema aparentemente sem solução, o qual lhe impedia o fechamento de um evento. Os hábitos do hotel delimitavam o espaço geográfico para a realização de convenções e a prática do turismo, impedindo inovações fora de sua área destinada a estes fins. A questão centrava-se no fato de ser necessária a utilização de um terreno no alto daquelas terras, e não havia banheiro neste local. Quando tudo já era dado como impossível e fora dos padrões operacionais, este empresário encontrou a saída criativa e sob medida, mudando completamente a rotina: sugeriu que se levasse o banheiro até o lugar, por meio de seu ônibus com toalete a bordo. Genial! Foi a palavra acordada pelos presentes. O hábito permite a segurança e o desempenho médio ao empreendimento, entretanto, a mudança originada pela criatividade assegura intervenções e possíveis êxitos diante de novos desafios.

Hábitos facilitam, mudanças aperfeiçoam. A combinação, sob medida, entre os dois pontos necessários, favorece o desenvolvimento e o correto uso das energias tão preciosas para se empreender conscientemente, cada vez mais, e obter vitórias decorrentes. A justa medida quanto aos hábitos e a necessidade de mudança são encontradas a cada nova situação. Cada caso requer uma reflexão e ação particulares. Habituar-se às mudanças é a chave para a constante atualização e a administração das ações de maneira econômica e experiente.

Sobre o autor

Armando Correa de Siqueira Neto

Armando Correa de Siqueira Neto

Armando Correa de Siqueira Neto
CRP 06/69637
Psicólogo, consultor, conferencista e escritor.
Professor de Gestão de RH da Faculdade de Administração de Limeira/SP.
Professor de Pedagogia Empresarial pela Faculdade Maria Imaculada de Mogi Guaçu/SP
Mestrando em Liderança pela Unisa Business School.
e-Mail:
Colaborador do Jornal Portal de Lauro

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