Projeto que leva cidadania às escolas chega a 20 cidades com inclusão e respeito às diferenças

“Eu aprendi que as pessoas surdas precisam ser incluídas, a gente que não tem deficiência também precisa aprender.” Aos 9 anos, Luana Nicole, aluna do 4º ano da Escola Municipal João Carlos Pinheiro Marques, em Ponta Porã, já consegue explicar uma das lições que o Intervalo da Cidadania ensina. Empolgada, ela fala a partir da experiência de quem desenvolveu, junto aos colegas, um comunicador acessível para pessoas surdas.

Estudante Luana explica como funciona o painel acessível para pessoas surdas

Com uma placa de programação microbit e o computador, a turma criou comandos para palavras como “água” e “banheiro”. Ao apertar um botão, o dispositivo exibe a palavra correspondente, ajudando na comunicação.

O trabalho teve o apoio da professora intérprete de Libras, que acompanhou os estudantes durante a programação. Cada iniciativa parte de uma pergunta prática: como tornar uma atividade mais acessível, facilitar uma tarefa ou ampliar a autonomia de alguém? Ao buscar respostas, os estudantes exercitam a criatividade e aprendem que a inclusão é a soma de atitudes, conhecimento e disposição para compreender o outro.







Da esquerda para a direita, Isabelle, Luana e Genaro, todos alunos do 4º ano que participaram do Intervalo da Cidadania





Para o estudante surdo, Genaro Damião, de 10 anos, a experiência de ver os colegas se empenhando para trazer a acessibilidade na prática foi “bem legal”. A simplicidade da resposta não diminui o significado da atividade, com os olhinhos brilhando, ele acompanha a explicação da amiga Luana. 

A Escola Municipal João Carlos Pinheiro Marques, em Ponta Porã, foi uma das 30 escolas a aderirem ao Intervalo da Cidadania pelo segundo ano consecutivo. Na primeira edição, a comunidade escolar trabalhou o empoderamento feminino, e agora seguiu o primeiro eixo do projeto, dedicado à inclusão, ao respeito e à valorização das pessoas com deficiência e das pessoas com transtorno do espectro autista (TEA).

Durante a programação, a subsecretária de Políticas Públicas para Pessoa com Deficiência da SEC, Laís Paulino, destacou o envolvimento dos estudantes e o compromisso dos educadores com uma escola que reconhece as potencialidades de cada criança.

Roda de conversa sobre os direitos das pessoas autistas e com deficiência reuniu professores, profissionais do Direito e pais



“Às vezes, o professor recebe um aluno com deficiência e pensa: ‘E agora, o que vou fazer? Vou ter que mudar tudo?’. Mas, muitas vezes, a mudança começa no nosso olhar para aquele aluno, na atenção que oferecemos e na capacidade de reconhecer seu potencial”, afirmou.

Laís também ressaltou a importância de iniciativas que ajudam a comunidade escolar a compreender as especificidades de cada estudante e a ampliar sua participação nas atividades. Para ela, os trabalhos apresentados mostram que a inclusão pode ser construída no dia a dia, com envolvimento e disposição para aprender.

O projeto também abre espaço para a participação de pais e responsáveis. Uma das atividades realizadas na escola foi uma roda de conversa sobre inclusão, que contou com a presença do motorista rodoviário Sérgio Melo, pai de um dos estudantes.

Motorista, Sérgio fala que trabalhar a temática é necessário e produtivo



Para ele, iniciativas como essa ajudam a dar visibilidade a questões que fazem diferença na vida das crianças e de suas famílias.

“Às vezes, parece tão fácil falar sobre isso, mas, ao mesmo tempo, é uma coisa que mexe muito com a gente. Como pai, sei da importância que uma iniciativa dessas tem para cada criança, cada pai e cada mãe. A roda de conversa foi muito necessária e produtiva. Fico muito feliz por ter participado de um projeto tão importante”, disse.

Cidadania como parte da aprendizagem

Em seu quarto ano de execução, o Intervalo da Cidadania chega a 30 escolas municipais nas cidades de Batayporã, Bela Vista, Corumbá, Ivinhema, Jardim, Naviraí, Nova Andradina, Nioaque, Novo Horizonte do Sul, Ponta Porã, Porto Murtinho, Ribas do Rio Pardo, Tacuru, Terenos, Campo Grande, Corguinho, Deodápolis, Guia Lopes da Laguna, Rio Brilhante e Taquarussu.

Para o subsecretário de Políticas Públicas para Juventude da SEC, Jessé Cruz, a ampliação da iniciativa demonstra o fortalecimento do projeto e o envolvimento das redes de ensino.

“Estamos vivendo um ano muito importante para a consolidação do Intervalo da Cidadania. Além dos materiais teóricos e audiovisuais, ampliamos os encontros formativos com os municípios, gestores e professores. Isso contribui para que as temáticas sejam trabalhadas de diferentes formas dentro das escolas, de acordo com a realidade de cada comunidade”, explicou.

Segundo Jessé, as atividades incluem feiras de ciências, projetos maker, produções artísticas e poéticas, oficinas e rodas de conversa. A diversidade de formatos permite que os estudantes participem ativamente do processo de aprendizagem e relacionem os temas propostos às situações que vivenciam.

“Não estamos falando apenas de cidadania dentro da escola, mas também da importância de saber viver e conviver. Isso interfere na maneira como os estudantes se relacionam entre si e com os professores, fortalecendo aspectos sociais e emocionais que também fazem parte da aprendizagem”, destacou.

Apresentação dos trabalhos em feira maker expõe o que alunos estudaram dentro do Intervalo da Cidadania durante todo o ano


Intervalo da Cidadania

Em 2026, o projeto tem como tema “Cidadania: O Que Isso Tem a Ver Comigo?” e trabalha quatro eixos: inclusão, respeito e valorização das pessoas com deficiência e TEA; prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher; MS Sem Racismo; e respeito às gerações e enfrentamento ao idadismo, com foco na conexão entre diferentes gerações.

As atividades são desenvolvidas, durante todo o decorrer do ano, pelos professores de acordo com suas áreas de conhecimento, com apoio de materiais alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e ao Currículo de Referência. Ao final, os trabalhos produzidos pelos estudantes são compartilhados com a comunidade durante o Dia C da Cidadania, data definida por cada escola.

Desde 2023, o projeto mobiliza escolas das redes estadual e municipal, envolvendo estudantes dos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, além de professores, coordenadores e lideranças juvenis. Naquele primeiro ano, foram alcançados 16 mil estudantes em 52 escolas. Em 2024, o número chegou a 24 mil estudantes em 83 escolas. Já em 2025, participaram 17,8 mil estudantes, em 32 escolas estaduais e 15 municipais, distribuídas por dez municípios.

Em 2026, a expansão para 20 municípios e 30 escolas municipais reforça a presença da iniciativa nas comunidades. Em Ponta Porã, o resultado aparece nos projetos desenvolvidos pelas crianças, mas também naquilo que elas levam consigo ao fim das atividades.

“Estamos trabalhando o Intervalo da Cidadania desde o ano passado e já percebemos o quanto muda a visão, não só dos alunos, mas de toda a comunidade escolar”, ressalta a diretora da Escola Municipal João Carlos Pinheiro Marques, Tatiana Amorim.

Paula Maciulevicius, Comunicação SEC
Fotos: Paula Maciulevicius/SEC

 

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